quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Amores verdes

foto: wallpapers.net


Beto nunca foi verde, natureza era só para pegar umas ondas e nem se importava se a praia estava propícia ao banho ou se uma imensa língua negra lambia as pranchas recheando de óleo e restos do temporal que havia caído na noite anterior. O negócio era curtir o que viesse pela frente. Podia até dizer que era um distraído ambiental. Quase foi preso no último carnaval, por estar mijando na areia da praia. Além do surf, dedicava um amor incondicional a seu cão, Thor, um poderoso Rottweiler que desfilava com Beto nas noites quentes, escondido dos porteiros dos prédios para que não fosse preciso catar o cocô. Também costumavam dormir juntos, numa harmonia que beirava o incompreensível para alguns seres humanos.
Só que Beto é homem e bonito apesar de estar beirando o limite que existe entre uma barriga sarada e os primeiros acúmulos de gordura. Vive em uma cidade quente e o vento que sopra do mar, sugere algumas emoções até para os mais desavisados.
Foi um susto ver aquela garota pegando o saco de batatinha que acabava de deixar cair no chão! Só não sentiu vergonha porque nem em mil anos desconfiaria que aquele gesto pudesse transmitir algo “ecologicamente incorreto”, aliás, aquela palavra não fazia sentido, soava mais como, “quero você”. E era isso que Beto queria. Agora, nesse segundo! Mas, Patrícia, parecia não reparar nos seus ombros definidos, no short largo, macio e abaixo da linha da virilha. Tudo estava no lugar, por sorte, até os óculos de sol eram iguais aos que o vendedor antenado acabava de expor nas vitrines da galeria.
Só não se sentiu o último da face da terra, porque homens, invariavelmente, não costumam se sentir assim. Ao contrário, vão à luta.
- E aí?
- E aí... O quê?
- Legal esse negócio de pegar o lixo na rua... Fiz isso quando estava na escola... Achava radical...
- Lindo...
- Jura?
- É. Só que eu acho que suas professoras deviam ir morar contigo e continuar o trabalho, que pelo visto, você já esqueceu!
- É... Hum... mas, pra quê professora, você deve ser muito boa nisso! Eu tô vendo que você entende tudo do assunto!
Acontece que Patrícia é mulher. E linda! Adepta a tudo que seja alternativo, clean, soft e... fofo mesmo. Aquele rapaz, à sua frente, apesar de ser um desastre ambiental, tinha os cabelos iguais aos do seu ex, provável, futuro e fracassado caso amoroso. O melhor era não recordar, porque, por mais que pensasse, chamais conseguiria entender como seu professor conseguiu nunca reparar em sua presença, mesmo quando estava sendo positivamente, digamos, óbvia! E... até que aquele filhote de Pit Bull, podia ter uma chance. Como Patrícia não resistia a um trabalho voluntário, resolveu salvar aquela alma, com coxas e tudo, da alienação. O caminho para academia foi percorrido seis vezes naquele sábado.
Beto acreditava que em algum momento ela passaria desfilando sua longa saia e sandálias douradas, porque garotas leves não poderiam calçar outra coisa que não fossem sandálias de tirinhas.
Já estava escurecendo quando a viu de longe, vinha tal qual imaginou a semana inteira, seus passos flutuavam quase sem tocar na calçada. Estava realmente linda! Embora, incompreensivelmente carregasse um pesado tênis de caminhada. Um contraste!
Sorrisos cúmplices segurando os olhares maliciosos e um beijo que não suportou mais ficar guardado no hálito e na saliva.
Tudo poderia ser festa, não fosse o esforço sobre-humano que Beto fazia a cada vez que saíam. Nunca havia passado por muitos rituais e achava que, às vezes, dizer que a comida dos seus lugares mais legais era lixo, beirava o exagero! E pior, Patrícia desfilava uma longa fila de nutrientes e calorias a cada vez que paravam em alguma lojinha de produtos naturais. Uma tortura!
Embora, depois que davam vazão à profusão de testosterona e progesterona, ficava incrivelmente intrigado com a sua pele. Nenhuma menina tinha aquela maciez.
Quando percebeu já fazia doação para três diferentes ONGs, passava sábados inteiros de sol plantando mudas em mangues e nas sextas à noite, melhor dia para as baladas, distribuía sementes de árvores em extinção, vagando pelos botecos. Um chope? Nem pensar! Era o único que tinha carro na turma.
Com o tempo, os cabelos de Patrícia já não pareciam tão negros assim e a sua magreza parecia mais acentuada. De repente; as tardes perdidas nas almofadas envolvidas em incensos começaram a enjoar... O fim puxava as cordinhas fechando o último ato.
Beto agora vagava, quase sem referência. A solidão materializando as horas. O mar reencontrando-o como velhos e distantes amigos. A volta da noite e da malhação. A volta dos passeios noturnos com Thor.
A música explode em micro caixas de som, pulsando em seus ouvidos e uma mulher se aproxima, pernas e músculos por trás da calça colada, balançam decididas pela calçada da praia e uma lata de refri é jogada no chão, displicentemente. Beto se abaixa e a recolhe...
(Joana Cabral)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Cadê Carolina




Ninguém se importou muito quando o silêncio se fez na hora em que a professora chamou o nome de Carolina na primeira aula daquela quinta feira.
Muito popular no pátio e no ginásio, principalmente na hora em que a seleção de basquete estava treinando, presença infalível! A marcação era firme e eficiente, não a do time, mas a do pivô, Pedro Henrique. Moreno, cabelos teimosos cobrindo os olhos, a loucura das meninas, para mais desespero ainda de Carolina, que não desgrudava de seus pés.
Uma nuvem de verão anunciando a tempestade não poderia ser mais ameaçadora do que a prova de matemática. Todos concentrados, alguns até desencavando do fundo da cachola, as orações que aprenderam nos primeiros anos de sua ainda inaugural existência. E foi mais ou menos depois de perder a segunda prova naquele semestre que a galera sentiu uma certa falta dos cabelos ultra vermelhos, repetidamente jogados para os lados a cada gargalhada estridente que atravessava os corredores da escola.
Algumas freiras achavam que tudo aquilo não era muito católico, faziam repetidos sinais de cruz credo com as pontinhas dos dedos. Era Carolina, entrando e saindo, atravessando os corredores, comendo escandalosamente um X-TUDO na cantina, sempre rodeada por seus extenuados colegas e por uma turma de vozes finas que nem sempre ecoavam verdades a seu respeito.
Era certo que ao olhar para o horizonte no intervalo entre as aulas, já não tinha mais tanta graça. O time de basquete não encontrava a inspiração exata para enterrar bolas consecutivas e alguns atletas sentiam uma fadiga inexplicável. Cogitaram até chamar o médico que sempre atendia a equipe para
receitar vitaminas ou se fosse preciso mesmo, uns estimulantes para que o time não fosse eliminado logo na primeira etapa do campeonato interescolar daquele ano.
Mas, e Carolina? O zum-zum- zum nos intervalos das aulas, subia em coro que ritmava as quatro sílabas divertidas. Pedro Henrique foi o primeiro que realmente sentiu sua falta. É verdade que não dava lá muita importância para aquela menina de pele morena e cabelo em chamas, insistindo em iluminar o ginásio com um único sorriso a cada vez que ele ameaçava tocar na bola.
Depois, a gang das vozes finas, após alguns dias de pálidas novidades, ansiava por alguma notícia que não fosse o previsível existir, que os alunos insistiam em perpetuar a cada ano que avançava.
Somente após depressivos quinze dias, a trajetória da terra pareceu achar seu eixo, e pode imperceptivelmente, girar sobre si mesma como nunca deveria deixar de ter sido. De repente, a bola de basquete reencontrou o caminho da cesta, as vozes finas afinaram ferinas com o ardor do reencontro, e as freiras tiveram de voltar às novenas, relaxadas que estavam, para que o hálito quente do pecado não envolvesse cabeças inocentes que ainda, achavam elas, ignoravam perigos de tortuosos caminhos.
Seria doença? Mal na família? Dor de saudade ou separação dos pais?
Nada sabiam, nem ninguém saberia dizer, somente ela, que, com uma ainda discreta sombra cobrindo seus negros e atentos olhos, seguia andando no invisível fio ameaçador da insegurança. E se acontecesse de novo? Como faria? O que de pior poderia ainda estar por vir, mundo cruel? Que todos os santos que habitam os céus e a terra a livrem de outra espinha!

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