terça-feira, 21 de junho de 2016

Cadê Carolina




Ninguém se importou muito quando o silêncio se fez na hora em que a professora chamou o nome de Carolina na primeira aula daquela quinta feira.
Muito popular no pátio e no ginásio, principalmente na hora em que a seleção de basquete estava treinando, presença infalível! A marcação era firme e eficiente, não a do time, mas a do pivô, Pedro Henrique. Moreno, cabelos teimosos cobrindo os olhos, a loucura das meninas, para mais desespero ainda de Carolina, que não desgrudava de seus pés.
Uma nuvem de verão anunciando a tempestade não poderia ser mais ameaçadora do que a prova de matemática. Todos concentrados, alguns até desencavando do fundo da cachola, as orações que aprenderam nos primeiros anos de sua ainda inaugural existência. E foi mais ou menos depois de perder a segunda prova naquele semestre que a galera sentiu uma certa falta dos cabelos ultra vermelhos, repetidamente jogados para os lados a cada gargalhada estridente que atravessava os corredores da escola.
Algumas freiras achavam que tudo aquilo não era muito católico, faziam repetidos sinais de cruz credo com as pontinhas dos dedos. Era Carolina, entrando e saindo, atravessando os corredores, comendo escandalosamente um X-TUDO na cantina, sempre rodeada por seus extenuados colegas e por uma turma de vozes finas que nem sempre ecoavam verdades a seu respeito.
Era certo que ao olhar para o horizonte no intervalo entre as aulas, já não tinha mais tanta graça. O time de basquete não encontrava a inspiração exata para enterrar bolas consecutivas e alguns atletas sentiam uma fadiga inexplicável. Cogitaram até chamar o médico que sempre atendia a equipe para
receitar vitaminas ou se fosse preciso mesmo, uns estimulantes para que o time não fosse eliminado logo na primeira etapa do campeonato interescolar daquele ano.
Mas, e Carolina? O zum-zum- zum nos intervalos das aulas, subia em coro que ritmava as quatro sílabas divertidas. Pedro Henrique foi o primeiro que realmente sentiu sua falta. É verdade que não dava lá muita importância para aquela menina de pele morena e cabelo em chamas, insistindo em iluminar o ginásio com um único sorriso a cada vez que ele ameaçava tocar na bola.
Depois, a gang das vozes finas, após alguns dias de pálidas novidades, ansiava por alguma notícia que não fosse o previsível existir, que os alunos insistiam em perpetuar a cada ano que avançava.
Somente após depressivos quinze dias, a trajetória da terra pareceu achar seu eixo, e pode imperceptivelmente, girar sobre si mesma como nunca deveria deixar de ter sido. De repente, a bola de basquete reencontrou o caminho da cesta, as vozes finas afinaram ferinas com o ardor do reencontro, e as freiras tiveram de voltar às novenas, relaxadas que estavam, para que o hálito quente do pecado não envolvesse cabeças inocentes que ainda, achavam elas, ignoravam perigos de tortuosos caminhos.
Seria doença? Mal na família? Dor de saudade ou separação dos pais?
Nada sabiam, nem ninguém saberia dizer, somente ela, que, com uma ainda discreta sombra cobrindo seus negros e atentos olhos, seguia andando no invisível fio ameaçador da insegurança. E se acontecesse de novo? Como faria? O que de pior poderia ainda estar por vir, mundo cruel? Que todos os santos que habitam os céus e a terra a livrem de outra espinha!

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Minha mãe nunca quis ser costureira, de Joana Cabral


Minha mãe nunca quis ser doceira, nem enfermeira, ela nunca quis uma profissão dessas que fazem as mulheres arrumarem os cabelos e os sapatos, como a nossa vizinha, D. Milena, que era secretária.
Minha mãe queria ficar perto dos filhos, e por isso, ela escolheu uma profissão grudada na casa e na família.
O meu pai achava isso muito bom, porque ele saia de manhã e voltava só no final da tarde com o pão fresco e quente debaixo do braço.
E nesta hora, minha mãe estava prontinha com os cabelos molhados no portão.
Era tudo tão sólido e durável, como o carro verde abacate, o ventilador barulhento e a televisão que tinha pé.
Até a umidade que vinha da praia, era mais forte e mais grudenta; o sal e a maresia colavam na pele e faziam o nariz brilhar.
Ah, a gente também esperava de cabelo molhado e roupinha caprichada com sapato e tudo. O final da tarde era uma hora de cerimonia, de ficar sério e sentar à mesa, quietos, para comer a sopa que esquentava mais ainda o nariz.
Depois do jantar tudo se dissolvia e a casa, a mesa e a comida mais pareciam um sonho que meu pai levava com passos seguros para dentro do quarto. O dia ia embora quieto e devagar, num silencio mais denso que a neblina que subia.
No dia seguinte após as correrias de comer e vestir roupas de colégio, finalmente minha casa mergulhava na musicalidade do farfalhar dos tecidos escorregando ao ronco da máquina de costura.
Minha mãe nunca quis ser costureira, ela só queria juntar as palavras e tentar contar quanta alegria via em tudo!
Mas não conseguia fazer muito verso quando pegava o lápis, tão pequeno, que sobrava do nosso material.
Então ela tinha um segredo, costurava as palavras que via nos tecidos.
Cortava as vogais, emendava as consoantes e alinhavava silaba por silaba. Montava as palavras e depois as frases. Ao final lá estava a saia que cabia certinho na cintura da D. Juliana!
O resto do poema ia no vestido da D. Jurema, ou na calça do Seu Juca, e minha mãe, somente ela, sabia o que estava escrito, porque as palavras eram secretas.
Quando começava a cortar um tecido, a história corria junto com a tesoura: e para cada roupa um desdobramento de aventuras e personagens e vilões de tirar o fôlego!
Minha mãe sabia que suas histórias andavam pelas ruas, eram admiradas pelas pessoas e nem precisavam ficar juntas e amontoadas nas vitrines das livrarias.
Sua literatura era livre e transmitia a poesia mesmo sem perceber.
Ela não se dava conta de que todos os dias alguém lhe encomendava uma blusa, um terno ou um vestido com bordados, nem reparava que nunca, nunquinha passava um dia sequer sem escrever suas histórias e poemas.
Talvez fosse por causa da poesia que ia junto com as roupas, que uma vez a mulher do dono da padaria, a D. Luiza, disse que minha mãe tinha um tal de “acabamento perfeito”. Eu fiquei muitos dias preocupado com aquelas palavras, pensei que se algo estava acabando, só poderia ser a minha mãe, mas o tempo passou e passou e eu, ficando ou não preocupado, pude perceber que ela não se acabava.
E seguia costurando como se cada peça de roupa, alimentasse a sua saúde, o seu ânimo e o seu desejo de continuar...
E assim ela foi formando a curva do tempo que pesava em suas costas, uma longa sinuosidade de histórias que se desenrolassem, dava pra dar uma volta inteirinha na nossa cidade.
E quando chegou lá no finzinho daquela curva, seus cabelos já branquinhos, e a pele um pouquinho mais fina e transparente, minha mãe, de repente não precisava mais contar histórias.
Ficava olhando para os tecidos e percebia que as letras desapareciam pouco a pouco...
Sem as palavras não podia continuar o seu trabalho. Não haveria ligação entre um lado e o outro das pontas do tecido se não fossem para tramar um enredo.
A busca pelos óculos na gaveta se fazia mais e mais necessária, a esperança renovada de encontrar as letras perdidas, flutuando sobre os móveis, ou sobre o tapete do quarto de dormir.
Minha mãe andava até o quarto, e vasculhava as gavetas da cama.
A nitidez do olhar era parcialmente recuperada pelos óculos, e ela às vezes, conseguia encontrar, entre os lençóis, uma ou outra palavra.
Ficava aborrecida com a fuga de forma tão inédita, mas mesmo assim não desistia de se lançar na busca, a tentativa de capturar as letras.
Precisava continuar.
Mas teve um dia, desses brilhosos e nítidos, que ela viu por sobre a cama, todas as palavras perdidas. Num movimento decidido, esticou o corpo por cima da colcha e deitou confortavelmente por cima de todas as palavras. Uma corrente de ideias num fluxo febril a envolveram e minha mãe se entregou, se jogou, para dentro do tecido, daquele, que seria o livro de sua vida!

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