NA PELE, conto de Joana Cabral
– Mãe, eu vou voltar.
Como assim?
– É isso mesmo, mãe. Vou voltar!
Mas logo agora que você conseguiu tudo pelo qual tanto lutou todos esses anos!
– O preço é alto, mãe!
Então você vai largar o trabalho, o apartamento, o Rui.... Você vai largar o Rui? Ou
ele vai deixar tudo para ir contigo?
– Eu não sei! Eu não sei! Ainda não falei com ele sobre a minha decisão!
Decisão? Então já está resolvida?
– Então você quer que eu fique aqui, mãe? É isso?
Não! Eu quero que você saiba realmente o que quer!
– Estou cansada, mãe...
Cansada de quê? Exatamente...
– De tudo... e também estou com saudades, muitas saudades.
Mas para matar as suas saudades é só tirar umas férias.
– Mas a minha saudade não se mata com férias, mãe. É uma saudade de existir. Estou
com saudades na pele, saudades do cheiro, do som. Não vão ser quinze dias, nem um
mês que vão me saciar desta saudade.
Então faz tudo de volta, todo o processo para ir viver em outro lugar. Tudo ao
contrário e volta. Você vai ser feliz aqui. Você tem a praia, os amigos, o nosso
apartamento que não é aberto desde que...
– Não, não consigo, o apartamento é a única presença material de você.... Pensando bem
vou tentar mais um pouco.
Estou sempre aqui, minha filha, vem, põe a cabeça aqui no meu colo. Ei... não chore.
Eu estou aqui. Sempre estarei ao seu lado. Toda dificuldade pode ser superada.
– Agora está um pouco diferente, mãe. Sinto uma insistente pressão no ar. Um frágil
limite entre o tolerável e o medo. Frequentemente flagro um olhar impaciente, um
sussurro ácido que atravessa o ar quando passo e sinto quase a arder na pele. Sinto que
algo está crescendo, uma agitação, uma indignação. Vejo uma agitação política que nós
já conhecemos muito bem, mãe. Uma premonição de situações que eu não quero viver...
Mas, não vai acontecer nada de mal contigo, e não é porque essa escuridão se deu no
seu país que vai se repetir aí também...
– Eu me calo um pouco mais a cada dia, mãe. Tenho evitado falar, vejo olhos nervosos
em minha direção quando falo, quando sopro para o outro meu inevitável sotaque. Evito
pensar em xenofobia e lembro de todos os livros que eu li, mãe, e sei para onde o ódio
insistentemente cultivado leva.
Pensa nas coisas boas, minha filha, nas pessoas e momentos pelos quais a sua jornada
pessoal te fez conhecer.
– Sabe o que me falta mais do que tudo, mãe? O pertencimento. Sinto falta de pisar o
meu chão. O chão do meu país! De usar a voz da minha cultura, de falar todas as
palavras que são necessárias para me fazer entender sem que seja preciso repetir e
reorganizar as ideias.
Mas agora aí também é o teu país!
– Eu sei, mãe, sei que estou rachada ao meio e nada nesse mundo vai me colar de volta.
Sou esta que carrega a gigante cicatriz existencial que me atravessa por inteiro.
E também tem o Rui.
– Sim, mãe, o Rui e todas as pessoas que aprendi a amar, admirar. Tem a natureza, mãe.
Sabe o que amo tanto e nem sei se consigo viver mais sem? As estações, mãe! Nem sei
como consegui viver tantos anos da minha vida sem o Outono!
Então ficar aí, com o Rui, não é uma ideia tão má assim...
– Ficar com o Rui, mãe. E agora tem ele também, ou ela.... Você sabe, né? A semente,
mãe... O tempo... O tempo que te levou tão cedo. O tempo que fez com que seus
antepassados pudessem ser lembrados, em você. E em mim também agora. O tempo me
trouxe esse desafio, mãe, o de ser, eu mesma, a que traz ao mundo mais um passageiro
para essa nave insana. E agora carrego comigo esta transformação, mãe. Vou deixar que
desça ao mundo aqui, mãe, nesta terra onde meus pés pisam agora. Ele será o que vai
unir os meus dois mundos: o que nunca vai sair de mim e que suaviza esta saudade; e o
que não para de entrar no meu modo de existir, mãe. Este mundo me emprenha de
significados tanto quanto estou prenhe de uma vida.
Enfim, mãe, acho que a resposta para a minha decisão já estava em mim, mas precisava
de pedir a sua ajuda. Obrigada, mãe, por nunca me deixar. Agora, mais do que nunca,
entendo o seu amor. Este poder de deixar uma semente que possa empurrar para a frente
o tempo e a vida. Este poder de renovar a humanidade. Obrigada, mãe, pelo colo e
consolo. Agora vou tomar um banho, colocar uma roupa bonita, porque tenho de contar
ao Rui a boa nova!
Comentários
Postar um comentário